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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Super 226maio
2006

O evangelho segundo Judas

Por dois milênios, Judas foi apontado como o maior traidor de Jesus. Agora, documentos sugerem que ele pode ser sido o mais fiel de seus seguidores.

por Ana Paula Chinelli

Essa é a última palavra sobre Judas Iscariotes: ele não traiu Jesus. Não é, necessariamente, a verdadeira. Nem a mais correta. Mas é a última versão da história mais polêmica do cristianismo. A revelação faz parte de um manuscrito redigido há cerca de 1,7 mil anos e que passou a maior parte desse tempo perdido em uma caverna no deserto egípcio. Escrito em copta, o idioma usado na redação de manuscritos no Egito antigo, o texto não deixa qualquer dúvida sobre os segredos que promete revelar. Na linha que abre a primeira das 13 folhas encontradas está grafado em destaque: Evangelho de Judas.
A tradução do manuscrito foi apresentada em abril, após 5 anos de trabalho. Autenticação, restauração e decodificação foram feitas pela Fundação Mecenas, da Suíça, e bancadas pela National Geographic Society. O resultado deixou historiadores e arqueólogos eufóricos. Afinal, descobertas como essa são raras e têm poucos precedentes – em termos de valor histórico, o evangelho pode ser comparado ao encontro dos Pergaminhos do Mar Morto, em 1947, que nos trouxe a mais antiga Bíblia conhecida, ou dos Manuscritos de Nag Hammadi, em 1948, que revelou ao mundo a existência dos evangelhos apócrifos. Juntos, todos esses textos estão permitindo que pesquisadores reconstruam a história do nascimento da religião que mais tem fiéis no mundo. “Por 2 mil anos, acreditamos que as únicas fontes sobre a vida de Jesus eram os 4 evangelhos canônicos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Mas, nos últimos 50 anos, vimos que eles são apenas um pequeno exemplo entre vários textos que foram escritos nos primeiros séculos após a crucificação”, diz Elaine Pagels, professora de religião na Universidade de Princeton.
Não que o Evangelho de Judas fosse exatamente um desconhecido. Estudiosos da religião já sabiam de sua existência por causa de uma carta escrita em 178 d.C. pelo então bispo de Lyon, santo Irineu – o homem que decidiu que apenas os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João entrariam na Bíblia. Em seu texto, Irineu citava nominalmente o Evangelho de Judas em meio a outros textos que o desagradavam pelo conteúdo “herético”.
O manuscrito recém-traduzido afirma que o único apóstolo a entender todo o significado dos ensinamentos de Jesus foi Judas. Ele mesmo, o homem cujo boneco é espancado anualmente na Páscoa brasileira. Cujo uso do nome é proibido na Alemanha. O sinônimo definitivo de traição. E, goste ou não, a última chance de rever esse estigma sobre o apóstolo é o evangelho. “Desconhecemos a existência de qualquer outro documento que relate a vida de Judas”, afirma Stephen Emmel, professor de estudos coptas da Universidade de Münster, na Alemanha, e um dos primeiros estudiosos a entrar em contato com o manuscrito. Estamos, portanto, diante da última palavra sobre Judas Iscariotes.
Quem foi Judas?
Judas é um personagem sem história. Com exceção de 15 citações nos evangelhos canônicos e algumas outras no Atos dos Apóstolos, quase não há registros de seu passado antes de conhecer Jesus. Ao contrário de apóstolos como Pedro, que era pescador, ou do cobrador de impostos Mateus, a Bíblia não conta de onde ele veio ou como ganhava a vida. Um silêncio que não chega a surpreender. “Pouco se sabe sobre Judas porque os evangelhos não tinham compromisso com a história. Eram apenas textos para orientar os cristãos e passar os ensinamentos de Jesus”, diz Gabriele Cornelli, doutor em ciências da religião da Universidade Metodista de São Paulo. E a orientação oficial sempre foi clara: Judas era o vilão. E ponto final.
Ponto final para os fiéis, é claro. Para os pesquisadores, este é apenas o ponto de partida para dúvidas que nunca foram respondidas. Algumas delas: assim como os outros 11 apóstolos, Judas também teve um grupo de seguidores? Quem eram eles? Há algum legado seu para o cristianismo? Qual foi a relação dele com Jesus? Judas foi mesmo o vilão pintado pela Bíblia? As respostas, como boa parte da história do nascimento do cristianismo, passam mais por hipóteses que por fatos comprovados. Acredita-se, por exemplo, que Judas era uma espécie de outsider entre os seguidores mais próximos de Jesus. Seu sobrenome, Iscariotes, provavelmente é uma indicação da cidade em que ele nasceu: Cariotes, ou Kerioth, ou algo bem próximo a isso – a vila nunca foi localizada com precisão. Sabe-se que o lugarejo ficava perto de Hebron, uma importante área urbana no sul da Judéia. Mas que estava a cerca de 5 dias de viagem da Galiléia, região que abrigava o coração da religião que nascia, onde viviam Jesus e seus outros 11 apóstolos (veja mapa no quadro acima).
E o que isso quer dizer? Que Judas pode ter sido uma figura bastante importante para Jesus. Caberia a ele levar as pregações aos habitantes da Judéia. E isso não era pouco. Vivendo no então principal centro político e econômico de onde hoje fica Israel, os habitantes da região acreditavam ser intelectualmente superiores aos moradores da Galiléia, considerados rústicos e atrasados, quase caipiras. O fato de Judas, um local, falar bem de Jesus pode ter ajudado a abrir as portas da região para o líder forasteiro. “A existência de um Evangelho de Judas leva a crer que ele teve seguidores e nos faz supor que ele tinha forte influência na Judéia”, diz Emmel.
Para entender como Judas podia ter uma “área de influência” é preciso conhecer a estrutura do grupo de seguidores que Jesus tinha ao seu redor. Eles estavam divididos em 3 círculos. No mais distante, ficavam os ouvintes. Eles estavam em todo o território judaico e não seguiam Jesus, mas eram simpáticos às suas pregações. No segundo grupo estavam os discípulos, cerca de 70 pessoas que seguiam o mestre, ouviam seus discursos, anunciavam sua chegada nas cidades, faziam algumas pregações em seu nome, mas não tinham compromisso com Jesus. Foi desse grupo que ele escolheu 12 homens a quem chamou de apóstolos (mensageiros, em grego). Eles formavam o terceiro grupo e eram os mais fiéis. Faziam parte desse núcleo central os irmãos Pedro e André, Tiago e João, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, outro Tiago (que era primo de Jesus), Judas Tadeu, Simão e Judas Iscariotes. “Jesus e os apóstolos tinham uma relação de profundo respeito e amizade”, diz o historiador da religião João de Araújo.
Nesse grupo, alguns tinham papéis definidos. Segundo a Bíblia, cabia a Judas a administração do dinheiro recolhido durante as pregações – uma função que sugere a confiança de Jesus (mas que também pode nunca ter existido, sendo acrescentada apenas para reforçar sua afeição ao dinheiro). A verba arrecadada cobria o custo das viagens. “Jesus foi um líder itinerante”, diz Cornelli.
Na ausência do líder, seus seguidores trabalhavam individualmente na busca por fiéis. “Jesus tinha muita clareza do que estava fazendo. Ele organizou células no território judaico e compôs uma estrutura que deu sustentabilidade ao seu poder. Isso explica por que o cristianismo sobreviveu mesmo depois de sua morte”, afirma o historiador André Chevitarese, professor de história antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Assim, é muito provável que cada um dos apóstolos tivesse um grupo próprio de seguidores. Afinal, apesar de falarem em nome de Jesus, eram eles que entravam em contato direto com as pessoas comuns. Davam conselhos, pregavam, supostamente operavam milagres. E, obviamente, faziam isso a seu modo: quem ouvia Pedro tinha uma visão diferente da dos seguidores de João ou Tomé sobre os ensinamentos de Cristo.
Mais tarde, essas peregrinações individuais serviriam como a semente que germinaria diversos cristianismos diferentes nos séculos 1 e 2 d.C. – é isso mesmo que você leu, diversos cristianismos. Antes, porém, a nova religião precisaria assistir a seu episódio mais emblemático.
A traição
Judas, a Bíblia manda dizer, teve papel central na prisão de Jesus. Ele foi o alcagüete, o X-9, o ganso, o dedo-duro, enfim, o judas da história. Levou os soldados romanos ao jardim do Getsêmani, onde alguns apóstolos e seguidores estavam reunidos e, à frente dos guardas, deu o famoso beijo que identificou o líder do grupo. Resumindo, Judas traiu Jesus. Simples assim. Essa é a história conhecida por todos. Ou pelo menos era, até os pesquisadores da Fundação Mecenas traduzirem o Evangelho de Judas.
Em 26 páginas, o documento narra os episódios ocorridos durante a semana que antecede a Páscoa judaica no ano de 33 d.C. (os dias imediatamente anteriores à prisão de Jesus) e mostra uma versão completamente diferente da que tínhamos acesso até hoje. No relato, Judas é descrito como o discípulo mais próximo de Jesus, o único capaz de compreender a essência de seus ensinamentos. A profundidade da relação entre os dois aparece, por exemplo, numa passagem em que Cristo desafia os apóstolos ao zombar do comportamento deles. Rindo, acusa-os de não rezar por vontade própria, mas apenas por acreditarem que assim agradariam a Deus. Enquanto os apóstolos, ofendidos com a bronca levada, “começaram a blasfemar contra Jesus em seus corações” (nas palavras do evangelho), Judas mostra ser o único a entender as palavras do líder. Impressionado, Jesus o chama em particular para dizer: “Se afaste dos outros e eu lhe contarei os mistérios do Reino. Você pode entendê-los, mas vai sofrer por isso”.
E quais foram os segredos revelados? Nos manuscritos, Jesus fala sobre um mundo superior, habitado pelo verdadeiro Deus, um espírito bom “que nunca foi chamado de nenhum nome” e que deu origem a uma linhagem de anjos de onde saiu o criador da Terra. Adorado pelos judeus e citado no Antigo Testamento, este seria um Deus inferior, cuja criação aprisiona o espírito do homem. Para nos salvar e encontrar o Deus bom, precisaríamos buscar nossa porção divina interior e nos libertar desse mundo.
Por fim, Jesus revela que Judas será superior a todos os homens porque ”sacrificará o homem que me veste”. E revela a missão do discípulo: matar a parte física para livrar o mestre de seu corpo, ou seja, do reino inferior que aprisionava o espírito divino de Jesus. Judas cumpre à risca as ordens: imediatamente procura os sacerdotes para denunciar o líder. Pelo serviço, embolsou algum dinheiro – o valor não é especificado. Nesse momento, o evangelho acaba, abruptamente.
A idéia de que Cristo não só sabia de sua morte como permitiu que ela acontecesse não é exatamente uma novidade. Nos textos bíblicos, Jesus avisa pelo menos 3 vezes a seus seguidores que será morto. Aponta, inclusive, a traição por um de seus discípulos. O que o Evangelho de Judas acrescenta a essa história é que Jesus teve um cúmplice para ajudá-lo a cumprir seu destino. “Nesse texto, Judas não é o seguidor mau que trai seu mestre. Ele é o amigo mais próximo, o que o compreendia melhor, que o entregou para as autoridades porque assim Jesus queria”, afirma o historiador Bart Ehrman, professor do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, e integrante da equipe que traduziu o evangelho.
Apresentar Judas como alguém que agiu a serviço de Jesus é uma história bastante diferente das contadas em todas as fontes disponíveis – os evangelhos canônicos, o Atos dos Apóstolos e os textos apócrifos. Mas, antes mesmo da descoberta do novo evangelho, outros textos já passavam longe de pintar Judas como grande vilão da história, ou então como uma pessoa gananciosa e demoníaca. O Evangelho de Marcos, escrito por volta de 65 d.C. e considerado pelos historiadores o mais velho entre os 4 canônicos, cita Judas nominalmente apenas 3 vezes, afirma ser ele o responsável pela traição mas diz que a recompensa em dinheiro foi oferecida pelos sacerdotes.
A partir daí, a imagem de Judas na Bíblia vai se tornando progressivamente má. Mateus, escrito por volta do ano 80 e o segundo mais antigo, atribui a traição à ganância de Judas, dizendo que teria denunciado Jesus em troca das famosas 30 moedas de prata – o preço de um escravo na época. Mas relata seu remorso ao ver que Cristo foi condenado e conta que Judas reconheceu que tinha entregado um justo, devolvendo as moedas e depois se enforcando. Lucas, o seguinte na lista, diz que “Satanás entrou em Judas” e, por isso, ele traiu Cristo. O texto de João, que teria sido escrito no início do século 2, diz que, além de possuído pelo demônio, Judas também era ganancioso e ladrão.
Em textos apócrifos, outras hipóteses são levantadas. Uma delas diz que os primeiros cristãos esperavam que Jesus lutasse com armas contra Roma. Decepcionado com a covardia do mestre, Judas o teria entregado. Outra versão diz que, ao delatar Jesus, Judas pretendia precipitar uma revolta no povo de Jerusalém, que libertaria seu líder e o colocaria no trono. Uma espécie de golpe à Jânio Quadros – só que, enquanto Jânio foi para casa, o erro estratégico de Judas levou seu líder à cruz. Para Craig Evens, estudioso de assuntos bíblicos do Acadia Divinity College, no Canadá, tantas versões distintas sobre o mesmo tema revelam muito sobre a Bíblia. “Um dos evangelhos afirma que Judas agiu por dinheiro, outro não cita motivações, dois falam em ação demoníaca. Creio que essas versões tão distintas deixam claro que os escritores do Novo Testamento não sabiam exatamente quem era Judas Iscariotes.”
Primeiros cristãos
Depois que foi crucificado, a Bíblia conta, Jesus ressuscitou e ordenou aos apóstolos propagar a fé em Deus por toda parte. Se a ressurreição aconteceu ou não é questão de crença religiosa. Mas que os seguidores de Cristo se espalharam pelo mundo, não há dúvida – até porque a perseguição dos sacerdotes judeus fazia de Jerusalém um território para lá de perigoso. Judas Tadeu e Simão seguiram para a Pérsia. João percorreu a Turquia e se instalou em Éfeso, um dos primeiros centros do cristianismo. Pedro viajou para Roma (veja por onde passaram outros apóstolos no mapa da página 63).
Se enquanto Jesus estava vivo cada discípulo já contava a história ao seu modo, depois da crucificação as versões se multiplicaram. Quando os apóstolos morreram sem deixar instruções por escrito, então, já não havia como esclarecer dúvidas. Circulavam centenas de versões para os mesmos fatos. Cristo era divino ou não? Divino por inteiro ou só parcialmente? Quem, afinal de contas, era Deus? Como existia mais de uma resposta para a mesma pergunta, em poucos anos o tronco original do cristianismo – as idéias e relatos de Jesus – se ramificou em diversos galhos. Os ebonitas, por exemplo, pregavam obediência às leis do judaísmo. Os marcionistas diziam que o deus judaico não era o Deus do Novo Testamento. Fala-se que os carpocracianos faziam troca de casais (tudo bem santo e em nome de Deus, é claro). Resultado: na metade do século 1, apenas 20 anos após a morte de Jesus, o cristianismo era formado por diversas correntes, muitas contraditórias entre si. E tinha, pelo menos, 3 dezenas de evangelhos diferentes – os textos que narram a passagem de Cristo pela Terra. Destes, apenas os de Marcos, Mateus, Lucas e João acabaram reconhecidos pela doutrina da Igreja. Os demais, acusados de propagar heresias, jamais foram acolhidos pelas autoridades católicas. Os textos excluídos eram atribuídos a Maria Madalena, Judas, Tomé, Pedro e, agora se sabe, até a Judas. “A maior importância na descoberta desse novo manuscrito é comprovar a existência de uma diversidade de opiniões no cristianismo primitivo”, diz Marvin Meyer, especialista em Bíblia da Universidade Chapman, nos EUA, e coordenador da tradução do Evangelho de Judas.
Como é consenso entre historiadores que os evangelhos não foram escritos pelos discípulos de Jesus que levam seus nomes, mas por seguidores deles, resta a dúvida: quem, afinal, era o tal fã do bad boy da história? “É muito difícil identificar o autor do texto. O máximo que podemos é saber o perfil dele: um cristão simpático ao lado místico da religião”, diz Meyer. E quando fala em “lado místico da religião”, Meyer dá a senha para resolver o mistério. Para ele, o Evangelho de Judas foi redigido em alguma comunidade gnóstica, um desses galhos do cristianismo primitivo. A suposição pode ser confirmada por documentos históricos. Afinal, o próprio Irineu, perto de 180 d.C., identificou os autores do evangelho como gnósticos. Ao contrário do que muitos afirmam, esse não eram um ramo dissidente do cristianismo. Pelo contrário: gnósticos eram bastante influentes nos primeiros séculos após a crucificação, pregando que o homem conseguiria a salvação se conhecesse Deus – gnosis, em grego, significa conhecimento. Lembra-se do motivo pelo qual Jesus disse a Judas que precisava morrer? É exatamente disso que estamos falando.
Gnósticos acreditavam que os homens se libertariam da prisão do corpo quando conhecessem a parcela divina que tinham dentro de si. “Eles diziam que o mundo foi criado por um outro Deus, mau, e que o corpo material era uma prisão do espírito”, afirma o frei franciscano Jacir Freitas de Faria, professor do Instituto São Tomás de Aquino, em Belo Horizonte, e um dos principais estudiosos dos gnósticos no Brasil. Não é à toa, portanto, que o Evangelho de Judas é considerado pelos pesquisadores como fortemente influenciado pelo pensamento gnóstico. “Esse evangelho mostra um modo completamente diferente de entender Deus, o mundo, Cristo, a salvação e a existência humana”, completa. Esse modo reflete o pensamento dos gnósticos.
A dúvida que fica é como um grupo de gnósticos concluiu que o suposto vilão é o verdadeiro mocinho da história. Na Bíblia, há duas versões para o destino de Judas. O Evangelho de Mateus conta que, tomado de remorso, ele devolveu as 30 moedas que havia recebido pela traição e se enforcou. Mas, segundo o Atos dos Apóstolos, Judas comprou um terreno com o dinheiro e, “tombando para a frente, arrebentou-se pelo meio, e todas as entranhas se derramaram”. “As versões da morte de Judas narradas na Bíblia são inconciliáveis, mas são os únicos relatos que temos”, afirma Chevitarese.
Mas, se Judas foi culpado pela traição e morreu tão cedo, como reuniu seguidores para escreverem seu evangelho? O professor Stephen Emmel formula duas hipóteses: ou Judas teve tempo de contar suas conversas com Cristo antes de se matar; ou não morreu tão cedo. “Quem escreveu o texto de Judas pensava que ele era um discípulo muito importante”, diz. “Acreditava que alguns ensinamentos especiais foram transmitidos por Cristo a Judas. E apenas a ele.”
A história oficial
No 1º século do cristianismo, o excesso de versões para as palavras de Jesus não era um problema. Mas, em 178 d.C., o bispo Irineu, de Lyon, resolveu unificar a Igreja. Queria fortalecer o cristianismo e controlar melhor os fiéis. Determinou, então, que apenas 4 evangelhos contavam a história verdadeira do filho de Deus e, portanto, deveriam ser os únicos seguidos pelos cristãos. O de Judas foi descartado.
Os critérios que orientaram a escolha de Irineu foram subjetivos. O primeiro, dizem historiadores, foi a facilidade de compreensão, já que os textos precisariam ser lidos em voz alta para os fiéis – afinal, a maioria era analfabeta. O segundo ponto era a idade: os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João estavam entre os mais antigos, escritos entre 65 e 95 d.C. O terceiro argumento foi o número 4, considerado especial por Irineu – porque havia “4 ventos e 4 direções (norte, sul, leste e oeste)”, como escreveu o próprio bispo. E, por óbvia conclusão, 4 evangelhos. Deu para entender a lógica?
É claro, a história relatada no evangelho também foi levada em conta. Irineu representava o cristianismo ocidental, ligado aos legados do apóstolo Pedro, que pregou em Roma. Ele não aceitava – na verdade, rejeitava – os pensamentos gnósticos. “Os gnósticos diziam que a salvação vinha pelo autoconhecimento. Assim, acreditavam que não precisavam freqüentar cultos e igrejas ou ter um padre como intermediário. Também afirmavam que a morte de Cristo na cruz serviu para libertá-lo da prisão que era seu corpo, mas seu sofrimento não poderia salvar os homens que aderissem à Igreja Católica”, diz Jacir de Faria. Na prática, a pregação gnóstica não era nada interessante para um bispo que tinha como objetivo fortalecer a Igreja. Evangelhos como o de Judas, Tomé e até o de Pedro receberam o carimbo de heréticos.
“Os líderes da Igreja queriam que o Novo Testamento fosse uma guia do que os fiéis deveriam aprender. Por isso, os 4 evangelhos oficiais são livros óbvios, claros. Os textos proibidos, não. Eles são místicos, inesperados, paradoxais, mais próximos à cabala judaica. São para iniciados que querem se aprofundar na fé”, diz Elaine Pagels.
Ao fazer suas escolhas, Irineu selou o destino de Judas. Um exemplo: por que Pedro, que negou Cristo 3 vezes, jamais teve sua virtude colocada em dúvida e não entrou para a história como traidor? “Pedro, chefe da Igreja em Roma, tinha de ser o herói. A Igreja elegeu Judas como vilão já que um dos 12 deveria trair”, diz o historiador Chevitarese.
“Judas serve como exemplo para amedrontar os cristãos que não seguirem o Evangelho”, comenta Jacir. “O cristianismo precisa desses arquétipos. Destruí-los é mexer nas bases que o sustentam.” Foi mais seguro para Irineu, portanto, ficar com os evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João, que seguiam linhas parecidas e não feriam os princípios de que Pedro era o apóstolo mais próximo de Cristo e Judas, o traidor. (Para quem ficou curioso ao perceber que Marcos e Lucas não integravam a lista original de apóstolos, o esclarecimento: Marcos era sobrinho de Pedro. Lucas, amigo de Paulo, que se tornou apóstolo após a crucificação, segundo ele, “por vontade de Deus”.)
Não chega a ser surpresa, portanto, que a Igreja tenha recebido com frieza a descoberta dos manuscritos. Ainda que pesquisadores como Marvin Meyer, coordenador dos trabalhos de tradução, defendam uma “reavaliação da figura histórica de Judas Iscariotes”, o Vaticano veio a público negar a benção ao novo evangelho. Walter Brandmuller, presidente do Comitê para Ciência Histórica do Vaticano, chamou o texto de “produto de fantasia religiosa”. E, na primeira missa após a divulgação do evangelho, o próprio papa Bento 16 fez questão de apresentar sua opinião sobre o tema. Não aliviou nas palavras. “O que deixa o homem imundo? A rejeição ao amor, o não querer ser amado e o não amar. É a soberba de acreditar que não precisa de purificação, a rejeição da vontade salvadora de Deus. Em Judas, vemos a natureza dessa negação com mais clareza. Ele valorizou Jesus segundo os critérios do poder e do sucesso”, disse.
“A Igreja nunca vai aceitar a versão que absolve Judas da traição. Na visão dela, o pecado de Judas existiu e se deve ao mau uso de sua liberdade. Afinal, ele tinha livre-arbítrio para escolher não entregar Cristo. Não foi um ato inevitável, nem um fatalismo”, diz o historiador da religião João de Araújo. O frei Jair de Faria concorda. “Judas somos todos nós quando traímos o projeto do Evangelho. O recado é claro: na dúvida, melhor não trair.” Judas que o diga.

Galiléia
Região onde viviam Jesus e 11 de seus apóstolos. De Betsaida saíram André, Tiago, Pedro e João. De Cana, Simão. Mateus veio de Cafarnaum. Jesus vivia em Nazaré.
Judéia
Era o principal centro econômico, político e religioso. Em Jerusalém ficava o templo sagrado judaico. Judas nasceu em Kariotes, ao sul de Belém e Hebron.

Todas as faces de Judas

Judas é traidor de Cristo, crime gravíssimo e execrável.
Relação com Cristo - Judas foi escolhido por Cristo para ser apóstolo. Era um amigo e digno de confiança.
Importancia Histórica - Judas é o traidor do filho de Deus e não há nada que possa redimi-lo.
Como propagou a fé - Os textos canônicos dizem que os apóstolos faziam pregações e curas na Galiléia e na Judéia.
Traição - Jesus anunciou sua morte. A traição, porém, é imperdoável. Segundo Mateus e Marcos, Judas procurou os sacerdotes e, por ganância, exigiu dinheiro para entregar Cristo. Lucas e João dizem que ele agiu por influência de Satanás.
Destino de Judas - Há duas versões: em Mateus, cheio de remorso, Judas se enforca. Em Atos dos Apóstolos, ele compra um terreno, cai prostrado e morre com as entranhas expostas.
Judas é o apóstolo preferido de Cristo. Não houve traição.
Relação com Cristo - Judas seria o único apóstolo capaz de entender a essência dos ensinamentos de Jesus.
Importancia Histórica - Judas libertou o espírito de Cristo ao permitir que Cristo se livrasse do próprio corpo.
Como propagou a fé - Judas recebeu ensinamentos especiais de Cristo e os transmitiu a seus seguidores.
Traição - Não houve traição. Na verdade, Judas atendeu a um pedido de Jesus e o entregou para os soldados romanos mesmo sabendo que seu nome seria eternamente injustiçado.
Destino de Judas - O evangelho termina quando Judas oferece Jesus aos sacerdotes, mas passagens anteriores sugerem que ele é aceito no reino divino.
Textos apócrifos
Os textos apócrifos não formam uma imagem homogênea de Judas.
Relação com Cristo - Judas esperava que Jesus libertasse o povo do domínio romano.
Importancia Histórica - Judas oscila entre um revolucionário e um covarde fraco.
Como propagou a fé - Não acrescentam nada ao que é dito pela Bíblia.
Traição - Judas agiu contra a vontade de Jesus. Algumas motivações diferentes são apresentadas: foi instigado pela mulher; queria provocar uma revolta popular para colocar Cristo no poder; ou estava frustrado com o pacifismo de Jesus.
Destino de Judas - Em um dos textos, Judas dá a alma ao demônio. Outro relata um encontro entre Judas e Cristo após a morte e diz que Judas foi “retirado do livro da vida e agarrado pelas trevas”.
Imaginário Popular
A associação entre o nome de Judas com os judeus é considerada uma das origem do anti-semitismo.
Relação com Cristo - Judas traiu Jesus por maldade.
Importancia Histórica - No dicionário, Judas é sinônimo de traidor, “amigo falso”. Seu boneco costuma ser queimado na Páscoa.
Como propagou a fé - A figura histórica de Judas e seu trabalho como apóstolo são ignorados pela maioria.
Traição - Judas é ladrão e traidor. Agiu motivado pela vilania e por ganância.
Destino de Judas Sofrer eternamente.

Nos bastidores do Evangelho de Judas

É uma história digna de romance policial. Estamos em meados da década de 1970. O cenário é El Minta, vilarejo desértico ao sul do Cairo, onde cavernas escondem manuscritos dos tempos de Jesus com valor histórico (e financeiro) inestimável. É esse lugar que um agricultor escolhe para vasculhar túmulos antigos. Encontra apenas uma caixa de pedra com livros. Frustrado, vende o material a preço de banana.
Em 1978, os livros já estavam nas mãos do egípcio Hana Airian, vendedor de antiguidades no mercado negro. Airian ofereceu os manuscritos a Nikolas Koutoulakis, grego que morava em Genebra, possivelmente tão picareta quanto Hana Airian. Talvez até mais – porque os papiros sumiram durante a negociação e, surpresa, reapareceram na casa de Koutoulakis.
A trama policial continua: no começo dos anos 80, o muambeiro grego teve um arranca-rabo com a namorada. Na briga, ela tentou se apoderar do manuscrito. Ele puxou de volta. E os papéis foram rasgados. Nenhum dos dois sabia, mas haviam acabado de danificar papiros milenares, redigidos com uma tinta feita com fuligem, e que narravam a relação entre Jesus e Judas.
Hana finalmente conseguiu reaver os papéis em 1983 e começou a procurar clientes mais confiáveis. No primeiro encontro “sério”, Stephen Emmel, especialista em copta de uma universidade alemã, teve 30 minutos para analisar o documento. Percebeu estar diante de uma relíquia, mas não houve acordo econômico. O vendedor pedia 3 milhões de dólares. O pesquisador só tinha 100 mil.
Os papiros, então, foram trancados num cofre de uma agência do Citibank em Long Island. Ficaram lá 16 anos, deteriorando-se. Quando saíram, estavam virando pó. Mas agora eram propriedade de Frieda Nussberger-Tchacos, egípcia nascida na Grécia, que os comprou em 2000 e passou a oferecê-los ao meio acadêmico.
A Universidade Yale preferiu não se meter com contrabando e recusou a relíquia. A Fundação Mecenas, da Suíça, topou. O acordo para recuperar os papiros incluiu a venda dos direitos de tradução e publicação para a National Geographic Society, que prometeu enviar os originais para o Museu Copta, no Egito, quando os trabalhos forem concluídos.
Se até então a luta tinha sido por dinheiro, agora era por tempo. As páginas estavam em péssimo estado, rasgadas e fora de ordem. O quebra-cabeça envolvia colocar fragmentos entre peças de vidro, escanear as imagens e remontá-las no computador. Foram identificados 4 livros diferentes no mesmo códice: o Evangelho de Judas, o Primeiro Apocalipse de Tiago, uma carta de Pedro a Filipe e um fragmento do Livro dos Alógenes.
Testes de datação por carbono feitos na Universidade do Arizona mostraram que o códice foi feito entre 220 e 340 d.C. É uma cópia em língua copta dos textos originais escritos em grego no 2º século da Era Cristã. Sobraram 62 páginas, de uma estimativa de 120 a 150. Do Evangelho de Judas, 26 páginas (13 folhas, frente e verso) foram identificadas. A epopéia ainda não terminou: falta restaurar e traduzir os outros 3 livros.

Glossário

• Antigo Testamento: Reunião de 46 textos hebraicos, escritos entre 1200 e 100 a.C. Formam a primeira parte da Bíblia cristã.
• Novo Testamento: É a segunda parte da Bíblia cristã, escrita após o nascimento de Jesus. São 27 livros: os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, epístolas, o Atos dos Apóstolos e o Apocalipse.
• Pergaminhos do Mar Morto: Cerca de 850 documentos encontrados entre 1947 e 1956 em Israel. Entre eles, a mais antiga versão do Velho Testamento.
• Apócrifos: Do grego apókpyphon (oculto), são os livros que não foram incluídos na Bíblia por divergirem dos ensinamentos da Igreja. Hoje, existem 113 apócrifos (52 relativos ao Antigo Testamento e 61, ao Novo Testamento).
• Manuscritos de Nag Hammadi: Em 1945, 13 códices de papiro foram achados em Nag Hammadi, Egito. Entre eles, cópias dos evangelhos de Tomé, Pedro e Filipe.

Para saber mais

The Gospel of Judas
Rodolphe Kasser, Marvin Meyer e Gregor Wurst (editores), EUA, National Geographic Books, 2006
The Lost Gospel: The Quest for the Gospel of Judas Iscariots
Bart Ehrman, EUA, National Geographic Books, 2006
O outro Pedro e a Outra Madalena Segundo os Apócrifos
Jacir Freitas de Faria, Vozes, 2004
Lost Christianities
Bart Ehrman, Oxford University Press, EUA, 2003

Quer vencer a dificuldade? Não há segredo: esteja na presença de Deus


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Quanto vale estar na presença de Deus? Se pudéssemos estipular um valor para isso, quanto seria? Na verdade, a resposta desta pergunta absurda é completamente individual, pois cada um valoriza a presença de Deus da sua forma. Para uns, estar com Deus vale mais do que para outros.

A Bíblia possui resposta para todo questionamento. No Salmo 84, é possível encontrar-se uma declaração de amor do escritor em relação a estar na casa de Deus.

Não há nenhuma surpresa para um cristão sobre a importância de estarmos na igreja. Aliás, este assunto parece estar intrínseco em todos aqueles que frequentam uma igreja. Entretanto, do mesmo modo em que se observa um constante crescimento do cristianismo no Brasil (já somos mais de 44 milhões de cristãos em solo brasileiro, de acordo com o último censo), se pode verificar um constante crescimento de fatores sociais negativos, como a criminalidade.

Agora pense um pouco: por que cargas d’água estes fatores sociais negativos e o cristianismo crescem juntos, se este segundo sempre foi um grande transformador de culturas e opiniões? Parece haver algo errado, certo? Parece que o “grande transformador de culturas e opiniões” está com algum defeito.

Grande verdade. No entanto, a proposta de vida de Cristo, que mais tarde passou a se chamar de cristianismo, não possui defeitos. Assim, fica fácil concluir que o defeito está naqueles que carregam a bandeira, e não propriamente na bandeira. O defeito do cristianismo está naqueles que o vivem.

Resumindo tudo isso: tem mais gente indo pra igreja ultimamente, mas o mundo continua piorando, ao contrário do que deveria acontecer.

Estar na presença de Deus deve ser para nós nosso objetivo diário, nosso propósito. Quando Deus diz que procura aqueles que O adoram em espírito e em verdade, não está falando de cultos semanais, que duram pouco mais de duas horas. Deus continua buscando adoradores, que vivem diariamente a Sua presença, que não conseguem viver um instante sem O adorar.

Pare para pensar naquele dia em que você experimentou a presença de Deus de uma forma diferente, inexplicável. Naquele dia em que você adorou a Deus em cada momento. Agora compare este dia com algum outro, em que você se esqueceu de orar porque estava muito atarefado (relaxe, isso acontece com todos nós!). Qual destes dois dias foi melhor? O que você adorou a Deus o tempo todo, ou aquele que você deixou de fazê-lo?

Assim fica mais fácil compreendermos o que o salmista queria dizer, no Salmo 84. “A minha alma está anelante e desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo.” (v 2). Não, rapaz, não se trata de uma simples poesia, ou belas palavras de uma canção. É uma tentativa do salmista de descrever tudo o que ele sente na presença do seu Senhor, da importância que este assunto tem para ele. Lendo o Salmo 84 sob esta perspectiva é fácil concluir: a presença de Deus, para aquele homem, valia mais do que tudo!

Acredito sinceramente que as coisas podem ser diferentes, se nós assim quisermos. Nosso objetivo não precisa ser mudar este mundo, mas se nós vivermos a presença de Deus como este e tantos outros homens que a Bíblia ou mesmo a história nos conta, certamente mudaremos esta geração! Valorize a presença de Deus, meu amigo, em todos os momentos da sua vida, e você vai ver uma transformação acontecer ao seu redor.

Agora diga-me, na sua opinião, quanto vale estar na presença de Deus? “Porque vale mais um dia nos teus átrios do que, em outra parte, mil. Preferiria estar à porta da Casa do meu Deus, a habitar nas tendas da impiedade.” Sl 84.10.

João Vitor

A-BD

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

ESTUDO DOS LIVROS DE ESDRAS E NEEMIAS








J. DIAS








O AUTOR

Não se sabe quem juntou na presente forma os documentos reunidos em Esdras e Neemias. Apesar de uma antiga tradição afirmar que um único autor escreveu os livros de Crônicas, Esdras e Neemias, é consenso entre os estudiosos de que o historiador que escreveu as Crônicas provavelmente não tenha sido o autor de Esdras e Neemias. Mas conforme as tradições judaicas, Esdras é o compilador dos livros de Esdras e Neemias.


UM ÚNICO LIVRO

Esdras e Neemias formavam originalmente um único livro composto por uma variedade de fontes históricas, inclusive pelas memórias pessoais dos dois livros. O historiador do 1º século d.C. Flávio Josefo e o Talmude judaico referem-se ao livro de Esdras, mas não a um livro de Neemias à parte. Os manuscritos mais antigos da Septuaginta também apresentam Esdras e Neemias num só livro.


Na Vulgata Latina, Jerônimo - seu tradutor, chamou Neemias de Segundo livro de Esdras. As traduções em inglês empreendidas por Wycliffe (1382) e por Coverdale (1535), também chamavam Esdras de 1Esdras e Neemias de 2Esdras. A mesma divisão apareceu pela primeira vez num manuscrito hebraico de 1445.


QUEM FORAM ESDRAS E NEEMIAS


ESDRAS – Sacerdote e escriba judeu. A história dele começa quando o rei persa Artaxerxes, no ano de 458, resolve enviá-lo para Jerusalém com o fim de instalar administradores e juízes por toda Judá (Ed 7). Assim que chega em Jerusalém ele tem de resolver uma questão sobre casamentos mistos que havia entre o povo (Ed 9 e 10). Esdras como sacerdote e escriba perito na Lei de Moisés, é mais conhecido pela leitura da Torá para a comunidade judaica e pelo reavivamento consequente (Ne 8.1-12). Em virtude de sua linhagem levítica, acredita-se que Esdras fosse um tipo de secretário ou conselheiro de assuntos judaicos no gabinete real (Ed 7.1-6). Diz a tradição que Esdras foi o fundador da sinagoga, que surgiu durante a permanência dos judeus no cativeiro. Visto que o templo fora destruído e o povo espalhado, precisavam de um lugar para a adoração ao Senhor.


A tradição o aponta como presidente de um conselho de 120 homens que estabeleceram o cânon do Antigo Testamento.


NEEMIAS – Filho de Hacalias, da tribo de Judá, e provavelmente da casa de Davi. É provável que Neemias tenha nascido no cativeiro. Aparece pela primeira vez em Susã, o principal palácio dos reis da Pérsia, onde exercia o cargo de copeiro do rei Artaxerxes Longímano (455 a.C.). Hanani, seu parente, havia chefiado uma caravana de judeus libertos da Babilônia de volta a Jerusalém; ao retornar do antigo território de Judá, descreveu a Neemias a deplorável condição dos seus compatriotas. Ele ficou muito consternado. Neemias é lembrado pela habilidade administrativa demonstrada em organizar a comunidade para reparar e reconstruir grande parte do muro de Jerusalém destruído pelos babilônios em 587 a.C.


Esdras e Neemias foram reformadores contemporâneos do período pós-exílico. Como seus antecessores, Ageu e Zacarias, eles tiveram ministérios complementares em Jerusalém de natureza física e espiritual. Ambos foram de Susã, na Pérsia, para Jerusalém durante o reinado de Artaxerxes I (464-424 a.C.), e eram membros respeitados da corte persa.


DATA E OCASIÃO

Os dois livros podem ser datados no período entre 430-400 a.C. As narrativas foram escritas para encorajar os judeus que haviam retornado do exílio, revelando-lhes que, embora Israel ainda estivesse sob o domínio persa, o seu Deus soberano estava dando prosseguimento à sua obra redentora e restabelecendo o culto verdadeiro entre eles.


TEMA

Os livros registram que Deus cumpriu as promessas feitas aos profetas, ao fazer regressar seu povo do cativeiro. Relata a restauração material, moral e religiosa da nação depois do cativeiro. A fidelidade de Deus é contrastada com a infidelidade do povo. Pouco tempo depois de terem regressado à sua pátria, cercados de várias promessas divinas, o povo se deixou influenciar pelos inimigos e interromperam temporariamente a reconstrução da Casa de Deus (Ed 4.24). Para animar o povo, Deus levantou Ageu e Zacarias (520-518 a.C.) com a promessa que: “A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o SENHOR dos Exércitos, e neste lugar darei a paz, diz o SENHOR dos Exércitos” (Ag 2.9). Mesmo assim a obra é embargada e só retomada a construção com a vinda de Esdras em 458.


ESFERA DE AÇÃO

O livro de Esdras registra dois períodos distintos: do capítulo 1 ao 6 transcorrem cerca de 23 anos, iniciando pelo decreto de Ciro, rei da Pérsia (538 a.C) permitindo o retorno do primeiro grupo de exilados à Jerusalém, sob a liderança de Zorobabel para a reedificação do Templo. Há um intervalo de quase 60 anos entre os fatos narrados nos capítulos 6 e 7. Em 458, outro grupo de exilados, liderados pelo escriba Esdras retorna a Jerusalém. Em linhas gerais, os livros relatam a história pós-exílica desde aproximadamente 538 a.C, até depois de 433 a.C. Um período de cerca de 100 anos.


CONTEXTO HISTÓRICO

A Jerusalém de Esdras e Neemias não era muito diferente da Jerusalém para a qual Ageu e Zacarias profetizaram setenta anos antes (520-518 a.C. (Ed 5.1,2). O segundo templo era muito inferior ao prédio magnífico erguido por Salomão (Ed 3.12). Em vez de inspirar a esperança da restauração na comunidade, ele servia apenas de monumento das expectativas messiânicas frustradas pela realidade do domínio medo-persa. De fato, a promessa de Jeová de tornar Jerusalém emblema entre as nações fora praticamente esquecida, enquanto Judá subsistia sob um império pagão que na época controlava a maior parte do mundo (Ag 2.20-23).


A situação não mudou quando Esdras e Neemias chegaram em meados do século V a.C. A iniciativa de restaurar os muros de Jerusalém foi realizada sob grande resistência da coligação de estrangeiros locais, dos quais se destacam Sambalate (governador de Samaria); Tobias, o amonita (membro influente da aristocracia de Jerusalém); Gesém (oficial árabe) e os árabes, amonitas e cidadãos de Asdobe (Ne 4.1-9).


A reforma religiosa e social de Ageu e Zacarias aparentemente não teve grande efeito. Apenas uma geração mais tarde, o profeta Malaquias (500-475 a.C.) repreendeu o povo por deslealdade ao Senhor Deus, e os chamou ao arrependimento e à renovação da aliança. Agora duas gerações após a pregação de Malaquias, Esdras e Neemias enfrentavam apatia religiosa e decadência social semelhante. Na realidade as reformas instituídas por eles, foram dirigidas contra muitas das mesmas violações censuradas pelos profetas pós-exílicos. Elas incluíam o desânimo espiritual e a adoração imprópria, a injustiça social, o divórcio, o casamento com mulheres estrangeiras, a negligência para com o dízimo, a devassidão e o abuso de autoridade por parte dos sacerdotes.


O período exato da chegada de Esdras a Jerusalém ainda é tema de debate entre os estudiosos, mas três hipóteses já foram levantadas:


1- De acordo com a posição tradicional, Esdras chegou em Jerusalém no sétimo ano de Artaxerxes I, ou seja, em 458 a.C. (Ed 7.8).


2- A segunda teoria se baseia na suposição de que o texto de Esdras 7.8, foi corrompido no decorrer da transmissão manuscrita e deveria dizer “trigésimo sétimo” ano ao invés de Sétimo. Isso situaria Esdras na cidade em 428 durante o segundo mandato de Neemias, como governador da comunidade de Jerusalém. Essa posição é a mais fraca das três porque a hipótese de erro textual em Esdras 7.8 não possui comprovação da crítica textual.


3- A terceira posição argumenta que Esdras ministrou em Jerusalém durante o sétimo ano do reinado de Artaxerxes II, ou seja, em 398 a.C. Essa cronologia da chegada de Esdras presume que o sacerdote Joanã mencionado em Neemias 12.22, e o sumo sacerdote Joanã mencionado em papiros de Elefantina do final do século V, devam ser considerados a mesma pessoa.


Apesar dos problemas enfrentados na relação de Esdras e Neemias como co-reformadores em Jerusalém, a posição tradicional continua a dar a explicação mais satisfatória com base nas evidências. A data de 458 a.C. para a chegada de Esdras em Jerusalém é a preferida. A data da chegada de Neemias está fixada no vigésimo ano do reinado de Artaxerxes I, ou 445 a.C.


CRONOLOGIA DO PERPIODO PÓS-EXÍLICO

Xerxes, rei da Pérsia – 485-465.

Artaxerxes I, rei da Pérsia – 464-424.

Retorno de Esdras à Jerusalém – 458.

Retorno de Neemias à Jerusalém – 445.

Neemias, governador de Judá por 12 anos – 445-433.

Neemias, segundo mandato de governador – depois de 433.

Dario II, rei da Pérsia – 423-405.

Artaxerxes II Mnemon, rei da Pérsia – 404-359.

(Todas as data são a.C.).


GÊNERO LITERÁRIO

Assim como nos livros de 1 e 2 Crônicas, estreitamente relacionados, nata-se como se destacam em Esdras e Neemias várias listas, que parecem ter sido obtidas de fontes oficiais. Estão incluídas listas:


- dos artigos do Templo (Ed 1.9-11);

- dos exilados que voltaram (Ed 2 e Ne 7.6-73);

- dos chefes dos clãs (Ed 8.1-14);

- dos que entraram em casamentos mistos (Ed 7.1-5);

- dos que ajudaram a construir os muros (Ne 3);

- dos que selaram a aliança (Ne 10.1-27);

- dos sacerdotes e levitas (Ne 12.1-26).


Há em Esdras, sete documentos ou cartas oficiais:

- o decreto de Ciro (1.2-4);

- a acusação de Reum contra os judeus (4.11-16);

- a resposta de Artaxerxes (4.17-22);

- o relatório de Tatenai (5.1-17);

- o memorando com o decreto de Ciro (6.2-5);

- a resposta de Dario a Tatenai (5.7-17);

- a autorização que Artaxerxes I deu a Esdras (7.12-26).


Muitos desses documentos foram escritos em aramaico, a língua da diplomacia internacional da época, e não contrariam os documentos seculares do período persa.


É possível perceber a importância da palavra escrita, pois como foi exposto o decreto escrito de Ciro foi o instrumento humano que gerou a ação de Esdras e Neemias, outros documentos escritos também desempenharam papel importante em relação a ações secundárias, cartas fizeram parar e recomeçar o trabalho no templo (Ed 4.23; 6.6-7).


A SOBERANIA DE DEUS

O propósito geral de Esdras e Neemias é afirmar que Deus age soberanamente por meio de agentes humanos responsáveis para realizar seu objetivo redentor:


- Ciro promulga o decreto porque o Senhor moveu seu espírito (Ed 1.1);

- Os que retornaram para Jerusalém o fizeram porque o Senhor moveu seus corações (Ed 1.5);

- Esdras obteve sucesso porque a boa mão de Deus estava sobre ele (Ed 7.9);

- Artaxerxes patrocinou a obra da reconstrução porque o Senhor havia colocado esse propósito em seu coração (Ed 7.27).


Seres humanos agiram livre e responsavelmente sob a providência de Deus a fim de que seus planos se cumprissem.


COMPOSIÇÃO DOS LIVROS

A composição propriamente dita dos livros de Esdras e Neemias se deu em fases distintas e, provavelmente foi concluída por volta de 400 a.C. A sequência de composição e compilação pode ser resumida da seguinte forma:


1 – Esdras e Neemias esboçam memórias individuais;

2 – O cronista combina as memórias, entrelaçando intencionalmente as informações;

3 – O cronista acrescenta a narrativa de Sesbazar e Zorobabel, às memórias para formar o prólogo ou introdução das autobiografias de Esdras e Neemias.


A mistura intencional de memórias de Esdras e Neemias levantou suspeitas entre certos eruditos quanto à integridade do compilador e da exatidão histórica das narrativas. Mas é bem claro nos livros que tudo foi documentado com grande exatidão e habilidade técnica, uma história muito pragmática do período da restauração hebraica, enfatizando temas religiosos como: obediência a Lei, pureza da religião, separação dos estrangeiros e etc. A prática de transmitir a mensagem religiosa no contexto das narrativas é tendência comum nos livros do Antigo Testamento.


Esdras e Daniel são os livros do Antigo Testamento que contém grandes trechos escritos em aramaico em vez de hebraico. No Período Persa o aramaico era a língua do comércio internacional, o que dificulta a determinação do local da composição das autobiografias. Quer tenha completado a obra na Pérsia, quer tenha sido na Palestina, é certo que o cronista teve acesso aos arquivos do Estado Persa, já que passagens aramaicas de Esdras parecem ser citações literais de cartas oficiais e documentos relacionados ao governo.


Portanto é possível que, ou Esdras ou Neemias tenha escrito a narrativa de Sesbazar e Zorobabel, ou ainda auxiliado o cronista graças à influência junto ao rei Artaxerxes (Ed 7.1-10; Ne 1.1-11). A adaptação hebraica do edito de Ciro (Ed 1.2-4) e da carta de Artaxerxes (Ed 7.12-26) sugere que a compilação final de Esdras e Neemias ocorreu na Palestina.


MENSAGEM

Esdras e Neemias descrevem parte significativa da história de Israel no período persa ou pós-exílico. O registro altamente estilizado documenta os principais fatos desde o edito de Ciro em 538 a.C. até o segundo mandato de Neemias no governo de Jerusalém (algum tempo depois de 433 a.C.). O conteúdo básico pode ser resumido da seguinte forma:


1- O retorno dos judeus a Jerusalém após o exílio babilônico, incluindo a reconstrução do altar e do templo;

2- A chegada e o ministério de Esdras, incluindo a Reforma religiosa da comunidade com base na Lei de Moisés;

3- A chegada e o ministério de Neemias, com a reconstrução dos muros de Jerusalém e a nova reforma social e econômica da comunidade.


A finalidade dos livros é contar e conservar a história da volta dos hebreus exilados a Jerusalém após o exílio na Babilônia. Por isso os registros destacaram a fidelidade do Senhor Deus, oferecendo esperança a Israel pela demonstração da ação divina entre reis e governos humanos. Teologicamente, as narrativas dos ministérios de Esdras e Neemias na restauração física e espiritual de Jerusalém, confirmaram as promessas de Javé renovar o remanescente de Israel.


A principal ideia teológica do material biográfico de Esdras e Neemias é a renovação da aliança na comunidade pós-exílica. O convite a renovação espiritual e à justiça social pelos reformadores tinha o propósito de corrigir os abusos e a conduta imprópria do remanescente e de dar ao povo esperança e ânimo. Era importante que a comunidade desesperada pelo visível descaso de Deus, reconhecesse que a obediência aos mandamentos contidos na aliança, era pré-requisito para a benção e a restauração de Deus para com Israel, sua possessão pessoal.


CONFIRMAÇÃO ARQUEOLÓGICA

A confiabilidade histórica de Esdras e Neemias tem sido confirmada por constantes descobertas arqueológicas. As evidências extra-bíblicas reunidas em inscrições de papiro, selos oficiais e utensílios comemorativos comprovam o relato bíblico em vários aspectos, incluindo os nomes de personagens importantes da narrativa bíblica.


ESBOÇO DE ESDRAS

I. O retorno sob a liderança de Zorobabel 1.1-2.70

Ciro proclama o retorno de Israel 1.1-4
O povo se prepara para o retorno 1.5-11
Os nomes e a numeração dos primeiros que voltaram 2.1-67
Ofertas voluntárias dos que retornaram 2.68-70

II. O processo de reconstrução do templo 3.1 –6.22

A reconstrução do altar e o começo dos sacrifícios 3.1-7
Os alicerces são colocados em meio a choro e louvor 3.8-13
Os inimigos desencorajam o projeto do templo 4.1-5
Bislão e seus companheiros se queixam a rei Artaxerxes 4.6-16.
Artaxerxes ordena a interrupção da obra 4.17-24
Tetenai tenta para a construção do templo 5.1-17
Dario assegura a Tatenai que o projeto é legal 6.1-12
Conclusão e dedicação do templo 6.13-18
Celebração da Páscoa 6.19-22

III. O retorno sob a liderança de Esdras 7.1-8.36

Esdras parte da Babilônia com outro grupo de exilados 7.1-10
Artaxerxes escreve uma carta de apoio a Esdras 7.11-28
Os nomes e a numeração do segundo grupo que retornou 8.1-20
Retorno dos exilados para Jerusalém 8.21-36

IV. A reforma de Esdras 9.1-10.44

Esdras confessa as transgressões de Israel 9.1-15
Os líderes de Israel concordam com a reforma 10.1-44
ESBOÇO DE NEEMIAS
I. Neemias: do exílio à reconstrução das muralhas de Jerusalém 1.1-7.73
Autorização de Artaxerxes para reconstruir as muralhas 1.1-2.8
Planejando o trabalho, motivando e organizando os trabalhos 2.9-3.32
Oposição e defesa 4.1-23
Rechaço contra a extorsão e usura pelo exemplo piedoso de Neemias 5.1-9
As muralhas são completadas apesar das intrigas maldosas 6.1-7.3
Restabelecimento dos cidadãos de Jerusalém 7.3-73
II. Esdras e Neemias trabalham juntos para estabelecer o povo 8.1-10.39
Lendo a Bíblia 8.1-12
Celebração da Festa dos Tabernáculos 8.13-18
Confissão de pecado pessoal e coletivo 9.1-37
Compromisso de guardar a lei e manter o templo 9.38– 10.39
III. Verdadeiro arrependimento produz justificação 11.1 –12.26
Censo de Jerusalém e vilas vizinhas 11.1 –12.26
Dedicação das muralhas e provisão para as finanças do templo 12.27-13.3
Segundo período de governo de Neemias, incluindo reformas posteriores e uma oração final 13.4-31











FONTES:

Panorama do Antigo Testamento – Ed Vida

Dicionário Bíblico – Ed Didática paulista

Bíblia de Estudos NVI

Bíblia de Estudos de Genebra

Módulo de Teologia FTB – Panorama do Antigo Testamento

Panorama Bíblico Avançado – ITQ

Neemias e a Dinâmica da Liderança Eficaz – Cyril Barber – Ed Vida

Estudo Panorâmico da Bíblia – Ed Vida

Auschwitz, Treblinka, Chelmno – O Holocausto


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aleitura deste post se torna necessária para que a exposição abaixo (após a leitura) tenha um objetivo, a de lembrar para não repetir-se a barbárie.
Elie Wiesel, um dos inúmeros judeus húngaros levados para Auschwitz, recebeu, em 1979, como presente do presidente Jimmy Carter, fotos aéreas do campo tiradas por aviões norte-americanos de abril até dezembro 1944. Na ocasião Wiesel declarou: “A evidência está diante de nós. O mundo sabia e manteve silêncio. Nada foi feito para interromper ou adiar o processo. Sequer uma única bomba foi lançada…”.
Há 60 anos, durante os meses de março a julho de 1944, enquanto centenas de milhares de judeus húngaros eram deportados para o complexo de extermínio nazista de auschwitz-birkenau, líderes e entidades judaicas faziam apelos desesperados aos governos norte-americano e britânico.
Imploravam que a força aérea aliada bombardeasse as ferrovias de acesso a auschwitz-birkenau, bem como seus fornos crematórios e câmaras de gás. tentavam , ao menos, diminuir o célere ritmo da destruição.
Durante todo o ano de 1944 os pedidos se  sucederam, mas a resposta dos aliados era sempre a mesma: “não”. Por que auschwitz não foi bombardeada? Por que os aliados, em 1944, após terem ocupado o sul da itália e adquirido a supremacia aérea que lhes permitiu atacar o leste europeu, não tentaram salvar vidas judaicas, destruindo o transporte e a máquina de extermínio?
ATENÇÃO: As imagens são muito fortes..
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judeu em tanque gelado até a morte
700 kg de cabelo
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